Viagem

Patagônia

Minha médica homeopata uma vez me disse que toda a viagem para fora, em realidade, é uma viagem para dentro. Quando comecei essa viagem à Patagônia chilena, queria que ela fosse um encontro direto com minhas emoções! Que eu aprendesse a sentir! Encontrei o que desejava, mas de uma forma completamente surpreendente.

Processado com o VSCO com preset c2

Em Torres del Paine, fiquei abismado em como poderia haver garras negras de rocha crua cobertas por gelo no meio de morros verdes rodeados por água. As montanhas pareciam um castelo negro de energias negativas em meio ao bosque vívido. Por qualquer motivo, pensei se meu coração também não seria assim: um mar de alegria e vida coexistindo com um castelo tenebroso de emoções negativas. Essa ideia, inicialmente a ser combatida pela razão, foi positivamente aceita pela minha consciência e trouxe harmonia para meu ser. Durante toda minha estadia em Torres del Paine, não vi motivo algum para repudiar a montanha nua e gélida; ao contrário, ela tornava o local exuberante e majestoso! Transferi essa sensação à metáfora e encontrei uma das chave para meu self. (eu poderia ter lido inúmeras metáforas a esse respeito, mas todas passariam pelo crivo racional antes de qualquer assimilação; é muito fácil e superficial aceitar com a razão, mas para a mudança ou o conhecimento efetivar-se interiormente é necessário que ele seja aceito pelas profundidades da minha psique. Consegui isso vivenciando a metáfora!)

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Ainda em Torres de Paine, precisei lidar com a total frustação da Lih em relação à viagem e seu impacto em minhas experiências nos lugares visitados. De repente, vi-me desperdiçando tempo, realizando passeios por mera obrigação, sem a vontade de explorar os locais e sem a felicidade de estar no momento presente. Não quis desperdiçar a minha viagem e então percebi que deixei a Lih como responsável por minha felicidade na viagem. Que absurdo! Mas, foi apenas assim que assimilei profundamente o conhecimento de que eu não sou o responsável por satisfazer as expectativas da Lih. A frustação dela não era culpa minha e não era eu quem deveria reverter aquele sentimento negativo nela (como bom esposo, sinto-me responsável por ajudá-la a tomar consciência da situação e de seu contexto, mas mudar a atitude dela em relação às experiências é algo que somente ela tem a capacidade de fazer). Nessa linha de descobertas, a mais reveladora de todas foi a de que eu não sabia o que fazer quando as pessoas me ofereciam emoções ou energias negativas. O que eu deveria fazer com a frustação da Lih? Ficar frustado também e perder a oportunidade de tirar uma foto desnudo? Esse conhecimento me parece ter se originado nas profundezas da minha mente e aflorado, finalmente, à consciência, que o aceitou e assimilou. Agora consigo perceber quando me comporto de uma maneira defensiva por estar numa situação em que não sei lidar com a energia ofertada pelo outro.

Processado com o VSCO com pré-ajuste c8

Sintetizei essa reflexão de maneira figurativa que me serve muito bem e foi outra chave para meu self: meu comportamento mais destacado e inconsciente é o de manter-me estritamente dentro da minha linha de conduta. Absolutamente qualquer coisa que me puxe para fora dela é tratada de maneira a me levar de volta à minha linha o mais rápido possível. Percebi isso em várias situações, desde tomar uma decisão sobre qual hostel reservar (qualquer um contanto que a discussão com a Lih termine o mais rápido) até sobre qual suco escolher (qualquer um, mesmo que seja o mais caro ou algum que eu não goste muito, só para não atrapalhar a fila), sem deixar mencionar o que fazer quando alguém quer discutir comigo (concordo o mais rápido possível e abro mão do meu ponto de vista apenas terminar a discussão rapidamente). É como se eu estivesse num campo aberto, plano, sem nenhuma pedra no caminho, mas completamente no escuro; minha linha de conduta é uma linha iluminada nesse campo e eu ando apenas por ela; se algo meu cai um pouco mais para longe, na escuridão, dou como perdido e me conformo simplemente para não sair da minha linha iluminada; se alguma situação me empurra para fora, na escuridão, faço qualquer coisa para voltar à linha o mais rapidamente. E percebi que muitos aspectos do meu relacionamento com a Lih empurram-me para fora dessa linha. O próximo passo da minha vida é completamente fora dessa linha iluminada, que não considero mais minha. Ou eu saía dela, ou ficava estagnado. Estagnei para reunir mana suficiente para sair dela! Essa era a minha vida regida pelo medo. Rezei para mudar essa regência para o amor e fé. Essa viagem foi a transformação quista.

IMG_8222Em Huilo-Huilo, no Museu dos Vulcões, vi como o cobre é trabalhado pela humanidade há mais de 6 mil anos. A evolução da técnica em torno de um mesmo objeto por mais de milênios! Isso consolidou em mim o conhecimento de que sou um entre muitos, que eu não tenho condições físicas nem intelectuais de viver sozinho (passar mal em Neltume foi o catalisador emocional para emergir e absorver esse conhecimento) e que meu destino nessa sociedade não é revolucioná-la, mas contribuir com um tijolo. Pacifiquei a questão que tanto me perturbava sobre criar o novo apenas integrando partes já existentes (seja em software ou em hardware). Emergiu em minha consciência e ela assimilou, enfim, o conhecimento de que este mundo em que vivemos materialmente é como um rio caudaloso com quedas-d’água: eu já tentei manter-me fixo numa queda-d’água pequena e sei qual é a força da água. É impossível lutar contra um rio caudaloso, é impossível mudar seu sentido. A força do Espírito da Época é onipotente! E o Espírito da minha época é justamente a da homogenização pela tecnologia, construção do novo usando por base o quase-novo (além do velho) e da colaboração como meio de progresso. O cenário econômico e científico em que a sociedade ocidental chegou não permite mais que uma única pessoa revolucione o planeta: mesmo que um motor de dobra seja inventado, ele será fruto do esforço de muitas pessoas e não de um gênio apenas. Sei, agora, então, que meu destino é contribuir com um tijolo para o mundo.Processed with VSCO with c7 preset

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