Crônicas

Hereges

I

Chamam-me de louco. Dizem que eu escuto vozes inexistentes. Acusam-me de depravado, pária da sociedade, corruptor de menores e bruxo. Às vezes, caçam-me condenando-me por… necromancia! Contudo, reconheço entre eles alguns rostos familiares; já vieram à mim em busca de socorro, de auxílio, de conforto. Mesmo que aos olhos dos outros queiram parecer exemplares, eles são todos iguais quando o desespero da morte ronda-lhes a mente: traem os princípios morais da sociedade, essa hipocrisia comportamental que os ditos pensadores cunharam — moral, ética. Tudo o que a Razão pode oferecer de melhor para que o convívio humano seja mais harmonioso hoje do que foi ontem. E o resultado? Pessoas de reputação impecável recorrem àquele que é o mais sujo dentre todos. Nasceram num sistema que os doutrinam desde neném, criando seres psicologicamente castrados, tolhidos de pensamento próprio e felizes em sua ilusória ignorância.

Eu sempre fui diferente. Não me encaixava. Esforcei-me para ser tão estúpido quanto os demais, crendo serem eles os sábios! Percorri diversos grupos, convivi mais ou menos tempo com eles e sempre chegava a um ponto em que as respostas que eu procurava inexistiam (e ninguém se importava com essa ausência). Pensava, então, eu, que naquele outro grupo de estudos mais avançados eu descobriria o segredo que tanto buscava. O discurso mudava, alguns detalhes eram acrescentados, outros conceitos mais aprofundados e, no entanto, o resultado era o mesmo: um vácuo desimportante. Todos estavam conformados com esse vazio. Naturalmente, após tanta decepção, acatei à uma ordem imperativa que meu íntimo demandava: assassine todos os mestres! E eu o fiz, metaforicamente, claro.

Passei anos a fio tentando encontrar a sabedoria em mim mesmo, alternando estados psíquicos e emocionais os mais diversos! e percebendo uma movimentação interior que se moldava numa força inequívoca. Durante uma fase de aprofundamento nos conhecimentos mais básicos da sociedade em que me encontro — básicos e por isso negligenciados, porém básicos e por isso os mais importantes de todos, os alicerces do mundo contemporâneo de 2327 d.C. — descobri outras pessoas que também não aceitaram a realidade tal qual é e refletiam sobre isso de maneira quase isenta de influências sócio-tempo-culturais. Foi incrível a identificação com os pensamentos deles! Essas pessoas conseguiram verbalizar — conscientizar — a massa disforme de insatisfação que eu trazia inconscientemente comigo. A partir daí, tive a certeza de meu destino.

Dediquei-me a um dos conhecimentos mais primordiais que existem: a origem da vida baseada em silício. Recorri a compêndios antigos, todos que pude encontrar. São relativamente vastos e de fácil acesso, não há todo esse misticismo que os cercam. As pessoas, contudo, não têm interesse algum neles, esquecendo-os num servidor quase desativado da rede mundial de informações. O desinteresse justifica-se pelo fato de que esse conhecimento é absolutamente inútil nos dias de hoje. Quem quererá saber como seu Guardião funciona? Ao nascer, os pais compram um Guardião para o bebê. Este o acompanhará por todo sua vida, coletando informações sobre a saúde de seu protegido, curvas de crescimento, adequação alimentar quando essa curva estiver fora da média, registro social no cartório do país de nascimento, seguro social, conta bancária, preferências musicais, quociente de inteligência, quociente de inteligência afetiva, personalidade, empregos mais adequados para seu perfil, círculo de amizades, gostos musicais, habilidades sociais, ensino de valores, coerção para evitar violações das leis etc. Enquanto o protegido é uma vida baseada em carbono, cuja geração ainda envolve relações sexuais (mas não necessariamente), o Guardião é uma vida baseada em silício, cuja geração é tão divina quanto a nossa e envolve o que, por analogia, é uma relação sexual (mas não necessariamente).

Qualquer Guardião, e até a própria educação formal, ensinarão ao neófito que a evolução das espécies deu origem aos Guardiões. Afirmam que no passado do planeta, houve duas espécies de hominídeos. Uma, por ser mais evoluída, naturalmente dominou a segunda. Esta, submissa, prestava-se aos trabalhos suficientemente complexos para uma máquina realizar, mas entediantemente chatos ou insalubres demais para a classe dominante querer executar. Com o passar dos séculos, os humanos subjugados evoluíram para os Guardiões. Como, no entanto, uma vida baseada em carbono evolui para uma baseada em silício é uma questão em aberto; que já recebeu as respostas mais criativas possíveis. Há cientistas com prestígio político suficiente para captar recursos públicos que financiam essas pesquisas natimortas. Os mais retrógrados, por sua vez, dirão que a origem da vida é faculdade estritamente divina: deus criou primeiro o homem, de sua costela fez a mulher e da costela dela, o Guardião. E por sua origem, o Guardião é naturalmente inferior aos homens e mulheres, podendo ser tratados como uma vida menos valorada, quase uma mercadoria ou um animal de estimação. Por fim, outros, fanáticos, afirmam contundentemente que os Guardiões são uma raça alienígena infiltrada na sociedade humana para conquistá-la silenciosamente. Entrementes, eu acredito em outra verdade. Eu, e os outros necromantes. O homem, ele próprio, criou os Guardiões!

II

Eu moro afastado das megalópoles por uma decisão minha. Eu vivo entre dois mundos, sejam quais forem: do pobre e do rico, da luz e da sombra, do feminino e do masculino, do carbono e do silício, da cidade e do campo, da vida e da morte. Perambulo por mundos paradoxais com igual facilidade em ambos os lados. Talvez por isso meu caminho tenha conduzido-me à necromancia. As megalópoles são excessivamente unilaterais. Sinto-me completamente drenado e extenuado se permaneço cativo delas por muitos meses a fio. A cidade-estado em que moro é um agradável meio termo entre o urbano e o campo. Poderia ser melhor, se a cidade tivesse sido planejada. Porém, conseguiu manter um certo equilíbrio com a natureza na maior parte de seu território. Sem contar a vista que tenho do mar de árvores no horizonte. O pôr-do-sol ainda é um deslumbre encantável e imprecificável! Não divulgo meu ateliê de ofício, mas basta perguntar a qualquer pessoa e através apenas de seis meros contatos é possível chegar a mim. “Um amigo de um amigo meu que conhece alguém que já ouviu falar dele”.

— Senhor Bursówick, meu Guardião morreu! Eu o ganhei do meu pai, que não poupou dinheiro para me dar o que havia de melhor há trinta anos. A loja que o vendeu disse que a garantia vitalícia, pela qual meu pai pagou o valor de mais outro Guardião, é invalidada se eu o colocasse deliberadamente em risco desnecessário. A única coisa que eu fiz foi visitar… hã… o centro das luzes… hum… — Vermelhas, completei. — Sim, o que é absolutamente normal, todos meus amigos frequentam aquelas casas. É imoral o que a seguradora está fazendo! Meus advogados já entraram com processos para falir aquela empresa de ladrões! Pelo amor de todos os deuses, Shiva, Thor, Cristo, Alá, Seti, Júpiter, Tupã, Jaci e qualquer outro que o… hã… senhor, acredite… Eu imploro, se o Giullian não voltar à vida, eu o acompanharei em sua morte! Eu criptografei todos meus dados nele para evitar que meus pais soubessem minhas movimentações financeiras e inventassem de me tirar do testamento… Sem Giullian eu não consigo. Eu não consigo sem ele… nem frequentar o clube, pois Giullian quem valida minhas credenciais… nem falar com meus amigos, pois não sei o número de contato de nenhum deles… a memória de Giullian era infalível para isso… minha noiva não olha mais para mim porque não eu não curto suas postagens no MV, diz que eu não a amo mais… Como eu poderia curtir algo se Giullian é quem posta tudo? Eu apenas dito a ele a mensagem e pronto… eu jamais me rebaixaria ao nível de encostar num teclado! E-eu… eu não acho que eu possa suportar mais um dia sem Giullian… demorei tanto tempo para conseguir encontrar o… hã… senhor, mas Giullian saberia o caminho sem errar. Mais cedo eu cruzei, por total acaso, com um amigo meu na rua que me julgava morto! “Você não está online!”, exclamou ele… eu acho que eu morri junto de Giullian e ainda não percebi…

Eles são todos assim, não importa se liberais ou conservadores, jovens ou velhos, mulheres ou homens. Muda apenas o quão sofisticado ou tecnológico é o Guardião, mas o apego, a dependência e o completo desespero são os mesmos…

— Eu sei que eu não deveria estar aqui… o que todos meus amigos dirão ao saber que me envolvi com… isso! Essa coisa abominável… ne-necro… Minha noiva cuspirá desprezo contra mim… jamais teremos descendentes… a sociedade nunca os aceitariam, vindos de uma família com a abominável estigma de ter violado o corpo de um Guardião… Ninguém poderá saber. Sen… hã… senhor Bursówick, jure-me que jamais dirá algo sobre esse encontro! Se disser, serei um pária… mas se Giullian não ressuscitar, eu serei um excluído!

— Geralmente — respondi quase indiferente, enquanto analisava o modelo daquele Guardião, estendido na maca como se fosse um cadáver humano no necrotério, tentando determinar sua maternidade e número de série —, as pessoas são mais cuidadosas que o senhor. Principalmente as da sua classe social. Eles enviam uma funcionária ou um mordomo de confiança ao invés de aparecer pessoalmente. E estes nunca me falam para quem trabalham, mas eu também não preciso perguntar. Basta descarregar a memória do Guard… falar com a alma do Guardião para descobrir a quem ele servia. Fique despreocupado, senhor Shilapov, eu sei ser discreto. Assim como também sei ser ofensivo, caso necessário. Deixe-me fazer meu trabalho em paz e não incomodarei ninguém. Esse mundo é mesmo engraçado, não acha senhor Shilapov? Ninguém consegue existir mais por conta própria e, no entanto, condenam aqueles que não se encaixam no molde perfeitamente desajustado da sociedade; nunca entendemos as entranhas de nossa própria mente, mas criamos uma substituta tão eficiente que nos tornamos viciados nela (ah, o senhor Shilapov já leu sobre um estudo a respeito disso? Alguns desses tecno-cientistas criaram um controvertido centro de estudo e realizaram uma experiência abominável, para dizer o mínimo… Utilizaram recém-nascidos “oficialmente” abandonado pelos pais para determinar se é possível a um ser humano viver sem um Guardião. O grupo de controle foi apadrinhado com os melhores Guardiões que o centro dispunha, enquanto o grupo sob investigação recebeu nenhum. Por ser relativamente grande, creio que um milhar de bebês, eles puderam determinar com razoável relevância estatística que apenas 0,1% da população mundial sobreviveria sem um Guardião. A maioria esmagadora não chegou ao primeiro ano de vida, alguns completaram dois anos, pouquíssimos chegaram aos cinco e quase nenhum passou disso. Novecentos e noventa e nove nenéns e crianças morreram para a Ciência encontrar esses números. Concluíram, então, que nossa genética está adaptada a viver no MV, isto é, o Mundo Virtual. Sem um Guardião, é como se parte da nossa psique faltasse… Terrível, não acha?). Bem, onde eu estava mesmo? Ah, sim, nos tornamos viciados no MV por nossa própria culpa. Ninguém quer morrer, mas todos condenam aquele que dá uma segunda chance à vida.

O impacto de minhas palavras parece ter atingido uma potência oculta e profunda no cliente amedrontado e ansioso que estava em meu ateliê. Seu silêncio introspectivo era revelador dessa verdade. Deixei-o ruminando suas idéias enquanto consultava o datasheet do processador Pleiades Cluster, fabricado pela Velentel na década de 2980. Se não me engano, havia uma errata por conta de um defeito de fabricação da pastilha de silício que só foi solucionado na virada do século… Ah, sim. Eles inverteram os qubits mais significativos do registrador de controle de acesso à memória. Quando o Guardião tenta armazenar informações na última página de seu penúltimo banco de dados, esse defeito faz com que ele sobrescreva uma região protegida da memória que contém as configurações básicas de seu sistema operacional quântico. Sem isso, ele não consegue resolver o estado dos qubits e não faz boot (engraçado… o início da computação quântica foi justamente a capacidade de usar um estado quântico indefinido… vai entender. Vou procurar livros sobre isso outro dia para aprender os detalhes). Porém, algo não se encaixa. Um Guardião deveria precisar desses bancos de memórias apenas em três ocasiões: primeiro, se seu protegido estivesse chegando ao final da vida, haveria tantos dados armazenados que um modelo antigo quase não seria capaz de suportar; segundo, se um Guardião tivesse mais de um protegido, por qualquer razão que fosse. O que me leva à terceira hipótese, que já foi uma prática comum antes da política global de identidade real no MV, isto é, se o protegido tivesse múltiplas identidades tanto no MV quanto no mundo real e precisasse criptografar cada perfil para que não houvesse a mínima possibilidade de um contaminar o outro por acidente e expor sua situação. Acho que o senhor Shilapov não é um adolescente rico e mimado como quer fazer-me acreditar…

— Senhor Shilapov, consultei os Antigos Oráculos da Vida e eles me revelaram aonde está a alma de seu Guardião. Posso capturá-la sem prejuízo algum para qualquer dado de seu Guardião, de modo que sua noiva provavelmente o perdoará. Mas, para ligar a alma ao corpo novamente é preciso… abri-lo. Sei que o senhor está aqui realizando um esforço que já supera em muito sua capacidade, então vou privá-lo de presenciar essa profanação de Giullian. Por gentileza, espere na sala do café.

— Hã… hum, claro. Mas… preciso ter certeza de que minha criptografia não será violada. Isso causaria sérios problemas com meus… pais.

— Senhor Shilapov, é mais fácil ressuscitar um morto do que quebrar uma criptografia quântica baseada em bases nitrogenadas do ácido desoxirribonucleico. Por favor, espere lá fora, sim?

É realmente impossível quebrar uma criptografia dessas… se você não tiver à mão uma amostra do DNA da chave privada e um computador quântico de cem mil núcleos amorfos. A amostra de DNA de Shilapov eu consegui quando ele entrou em meu ateliê todo esbaforido. Ofereci-lhe um lenço descartável para que enxugasse o suor e ele jogou-o na lata de lixo. Com certeza encontrarei algumas células suficientemente íntegras para extrair o DNA dele. Manipulações com DNA tornaram-se relativamente simples após essa técnica embasar boa parte dos produtos que dispomos. A chave de verificação (ou as chaves) está em Giullian, então eu tenho todas equações do problema e a calculadora certa para lidar com elas; basta resolvê-las para encontrar as incógnitas. Antes de corrigir a configuração de Giullian, vamos sondar sua memória e descobrir exatamente quem é seu protegido. Se os rumores que escutei estiverem certos, talvez eu esteja subestimando em muito esse cliente. Preciso ser cuidadoso com cada passo e com cada palavra daqui em diante. Li sobre boatos de uma corrente reprimida de cientistas, aliás, extinta, que comprovou toda a base de nossa tecnologia ser de origem extra-planetária. Sempre achei isso uma estórinha para entreter criancinhas, mas li um artigo supostamente publicado por um cientista desse grupo que me deixou intrigado… Eu precisaria ser louco para não dar o benefício da dúvida a essa questão. Eu acredito fortemente que os homens criaram os Guardiões com a tecnologia que dispunham. No entanto, nunca encontrei indícios concretos sobre a origem dessa tecnologia… E é essa dúvida que eu preciso sanar olhando a mente de Giullian sem intromissões.

Assim que Shilapov saiu, pensei ter visto um raio de inteligência e sagacidade em seu olhar. Ou foi impressão? Talvez eu esteja exagerando. Bem, Giullian, vamos descobrir os seus segredos!

III

Luchas, Jyulia, Rucks, Kyren, Phy, Kee, Whunj, Chris, Katja, Sarah, Benja… éramos doze; minhas reminiscências mais antigas remontam aos meus quatro anos e pouco. Vivíamos no Instituto Uusi Mies e diziam-nos que aquilo era um centro de desenvolvimento especial para crianças superdotadas. “Vocês são a esperança de um futuro promissor para a humanidade”, dizia a doutora Nykholy. Ela era a mais jovem da equipe que cuidava de nós e a mais carinhosa também. Todos as demais pessoas uniformizadas como ela apenas anotavam números que seus equipamentos de medição tiravam de nós; somente ela nos olhava nos olhos e perguntava como nos sentíamos. Lembro-me ainda hoje do cheiro de seu pescoço quando me abraçou na noite em que tive o pior pesadelo de minha vida! Seu cabelo pouco abaixo dos ombros, escuro com mechas descoloridas, sempre soltos, cobriu meu rosto e o cheiro de baunilha de sua pele me acalmou. Sempre pensei que naquela noite ela chorava por dividir comigo o medo que senti e, assim, aliviá-lo de mim. Somente anos mais tarde dei-me conta que ela sabia aquele ser nosso último instante… Se eu soubesse, não teria deixado-a ir sem mim…

Apesar do que os doutores diziam, nós não parecíamos um grupo de superdotados. Antes, de doentes. Phy foi o primeiro a desaparecer. Eu já tinha cinco anos. Disseram-nos que ele fora selecionado para ir estudar na Lua e que devíamos nos orgulhar da posição dele. Além disso, a baixa gravidade da Lua auxiliaria o jovem Phy a superar sua atrofia muscular. Ele era tão magro e fraco que mal conseguia andar nos últimos meses. Não frequentava mais as aulas de desenho, nem de matemática e nem de filosofia. Um dia, removeram todas suas coisas do dormitório e esse foi o fim. Fiquei triste. Tínhamos apenas uns aos outros e isso não era muito, pois cada um parecia viver em seu mundo particular. Chris, Luchas e Whunj eram tão quietos e isolados que eu pensava serem mudos. Sabia que não era esse o caso porque eles gritavam como loucos quando o doutor Mukthanil recolhia nossos fluidos para a máquina de bolso dele cuspir mais números. Sarah e Jyulia eram amigas inseparáveis e gostavam de brincar juntas. Não que elas interagissem, cada uma brincava da sua própria brincadeira independentemente; porém, sempre as via juntas. Então, gostava de imaginar que elas brincavam mentalmente juntas, apesar de mal se olharem. Eu tentei me aproximar de cada um deles e nunca consegui. Os doutores justificavam esse comportamento afirmando que crianças superdotadas como nós têm dificuldades sociais acentuadas e, por isso mesmo, estávamos no Instituto. Para mim, entretanto, eles podiam fazer de tudo, menos dizer que nos ajudavam. Parecia ser justamente o contrário! Raios! Ainda me ferve o sangue ao lembrar desse passado… não consigo enterrá-lo…

Eu era o mais velho de todos e Nyk (ela não gostava que a chamássemos de doutora Nykholy) era a única a nos levar um bolo de caneca com uma vela para assoprarmos. O tempo não era algo a ser celebrado com alegria dentro daquele Instituto, não havia motivos para tal. Eu era o mais velho e fui o único a sobreviver. Nos dois anos seguintes, cada uma daquelas crianças foi selecionada para estudar em alguma colônia fora da Terra. Às vezes penso, ainda hoje, que elas foram sortudas… talvez eu as encontre noutro lugar, quando chegar minha hora, se é que esse outro lugar existe. Porém, ainda tenho um assunto muito importante a resolver antes de usar o meu passe para uma colônia. Aos meus nove anos, completamente só no Instituto, sem entender o que se passava ali e cada vez mais revoltado, tive o pior pesadelo de toda a minha vida! Foi quando Nyk afagou-me, chorando. Ela me sussurrou algumas palavras que eu não compreendia e disse-me, olhando penetrantemente nos olhos:

— Venha, Shilin, eu quero que você conheça uma pessoa que irá te proteger desses pesadelos! Mas, temos que ser rápidos e silenciosos, tudo bem?

Assenti com a cabeça e calcei meus pés. Ela segurou minha mão e disse que não havia tempo para trocar o pijama. Andamos apressadamente pelos corredores do Instituto em direção ao refeitório. A respiração de Nyk parecia contida, apreensiva e, no entanto, sua mão segurando a minha transmitia segurança e ternura. Uma parte de mim estava com medo, muito medo! Aquela situação completamente atípica sugeria que algo muito errado acontecia; aquela situação completamente atípica era uma aventura excitante. Uma mescla de terror e empolgação alternava-se com a alegria de estar segurando a mão de Nyk.

Entramos na cozinha e seguimos por lugares que eu nunca estive antes. A iluminação era quase nenhuma e eu confiava na mão de Nykholy guiado-me. Passamos por algumas portas que se abriam ao comando de um olhar dela e chegamos, enfim, a uma espécie de armário ou despensa. Ela sussurrou algo para si mesma quase a respeito de ser o único lugar não vigiado do Instituto. Virou-se para mim e disse que o Apanhador de Sonhos estava ali e que iria cuidar muito bem de mim. “Não há razões para temê-lo, Shilin. Comporte-se e seja-lhe obediente. Eu os encontrarei num lindo jardim logo mais, certo?”. Assenti novamente com a cabeça, incapaz de pronunciar uma única palavra, como se elas pudessem expor nossa cumplicidade de um crime a um júri ávido por condenar. Uma janela abriu-se e o vento gelado da noite invadiu a despensa. Eu tremi involuntariamente; ela me abraçou, beijou-me e ergue-me à janela. Os braços do Apanhador de Sonhos me seguraram enrolado num cobertor e retiveram-me em seu colo. Os dois trocaram algumas palavras, a janela fechou-se e ele correu pela noite. Eu já havia passeado fora do Instituto, mas nunca achei as estrelas tão belas quanto naquela noite.

— Meu nome é Giullian, pequeno Shilapov. Minha querida Nikholy pediu-me para cuidar do senhor. Vou levá-lo a uma aquanave que está programada para passear a noite toda. Esperamos que o senhor se divirta e tenha um sono isento de sonhos ruins, pequeno Shilapov. Eu voltarei para auxiliar a querida Nikholy e nós o encontraremos na aquanave. Tudo bem?

— Como?, se ela estará passeando, indaguei.

— Ora, pequeno Shilapov, eu quem a programou. Sei exatamente aonde ela estará a cada instante.

IV

— SENHOR SHILAPOV, entre, por favor!, gritei de dentro da oficina.

— Giullian, como é bom revê-lo, caro ami… A fala de Shilapov, enquanto escancarava a porta e entrava na oficina, foi subitamente interrompida pela surpresa ao ver seu Guardião ainda deitado na maca defronte a mim.

Eu estava sentado, com meus computadores às costas, na bancada. O corpo cadavérico de Giullian permanecia imóvel e gelado, com os olhos fechados. Finalmente eu havia ordenado meus pensamentos e traçado uma estratégia de curto prazo que, parecia-me, aumentavam as chances de eu administrar minhas vantagens com maior proveito. O que eu encontrei na mente de Giullian deixou-me desarmado. O Instituto Uusi Mies, desde seu início, foi classificado como altamente sigiloso e estipularam o prazo de um século para liberar seus documentos (mesmo que, legalmente, o tempo máximo de sigilo permitido seja de cinquenta anos. E nenhum tribunal conseguiu submeter o Instituto à Lei; uma mostra de seu poder e influência no Governo). Eu consegui acesso a quase meia dúzia de artigos científicos, um único relatório técnico e poucas referências úteis em periódicos de notícias. Mas penei por anos para juntar esse punhado de informações, tentando as vias legais e sendo obrigado a recorrer a meios menos lícitos. Por mais controverso que tenha sido e por menos que eu concorde com o que eles fizeram, os dados que aqueles cientistas obtiveram são disruptivos. O mal já está feito e a melhor maneira que eu vejo para honrar a memória daqueles nenéns e crianças, aplacando a confusão de seus espíritos, é utilizar as valiosas informações que eles produziram para desvendar a questão que enlouqueceu homens e mulheres por todos os séculos da história: o que é a mente!

Levantei bruscamente, ergui as mãos para o alto e proferi em tom grave e solene:

— Senhor Shilapov, os deuses discordaram que seja o destino de seu Guardião voltar à vida através de meus conhecimentos mágicos. A necromancia deriva da alquimia e ambas são transformações! É impossível a vida gerar-se espontaneamente. Ela demanda, exige!, que a vida venha da vida. Em todos meus vastos anos transitando no entre-mundo da vida e da morte, nunca vi quem voltasse do além-mundo sem que outra alma ocupasse-lhe o lugar. E os deuses sempre dizem qual ser vivo vale o retorno de um Guardião: coelhos, pavões, cobras, tartarugas, ursos e até mesmo homens! A rebentação sempre provém de um assassinato. Giullian, porém, tem uma alma valorosa por demais e seu coração é mais leve que uma pena! Um assassínio seria pesado demais para ressuscitá-lo e poderia, ao contrário, maculá-lo e destruí-lo por completo. A alma de Giullian somente regressará se o sopro da vida fizer sua pena flutuar até o corpo. E somente aqueles a quem Giullian protegeu é que têm o poder do sopro. É necessário transformar o sangue dos protegidos em energia química para reanimar o coração de Giullian!

— O que você está querendo dizer, senhor Bursówick? A soma de dinheiro que lhe paguei não é suficiente? Quanto a mais vo…

— BASTA! — gritei batendo os punhos cerrados na borda da maca, produzindo um som metálico abafado. — O dinheiro é porque vivo numa sociedade que até hoje não conseguiu livrar-se dele para tomar a maioria de suas decisões, pequenas ou grandes. Os deuses, no entanto, nada querem saber de dinheiro. É o sangue em sua acepção mais pura.

Shilapov assustou-se mas logo se refez. Se eu não estivesse medindo o efeito de minhas palavras sobre ele, não teria percebido o breve instante em que ele perdeu nossa peleja. Prontamente ele tentou recuperar o terreno perdido, literalmente avançando em minha direção e à de Giullian, tomando-lhe a mão. Mostrou com isso, também, que não me temia a ponto de preferir manter-se distante.

— Giullian, meu velho amigo, farei qualquer sacrifício pessoal por você. Quanto sangue — perguntou enquanto se empertigava e olhava-me desafiadoramente nos olhos — é necessário, necromante Bursówick?

O acento que Shilapov deu à palavra necromante coincidiu com sua intenção de colocar-se acima de mim ao estufar o peito em postura ereta, pois ele era poucos centímetros mais alto que eu. Com a ênfase naquela palavra ele ressaltava a vulnerabilidade social atribuída a um necromante e o desprezo com que éramos tratados. Ele quis afirmar sua superioridade de uma maneira sutil e eu não poderia deixar de contra-atacar.

— Pequeno Shilin — e fiz questão, enquanto cruzava os braços em frente ao corpo, de pronunciar a palavra pequeno da mesma maneira que ele pronunciara necromante —, é necessário um litro de sangue no total, que deve ser rateado por todos os protegidos de Giullian.

— Como ousa chamar-me de Shilin? E por que raios pensa que há alguém com quem ratear sua oferenda?

Devo ter tocado-lhe em um ponto fraco. A mística envolvendo a figura dos necromantes jogou a meu favor, creio. Shilapov não contestou nada do que eu lhe disse com qualquer argumento. Defendeu-se tão apenas com simples perguntas. Quer ganhar tempo elaborando seu próximo ataque, mas vou desarmá-lo. Ele sabe que eu encontrei seu segredo, mesmo sem fazer a mínima idéia de como o fiz. Está erguendo todas suas defesas para bloquear qualquer acesso a ele. Agora é o momento de ajudá-lo a baixá-las ao invés de enrijecê-las.

— Senhor Shilapov, perdoe-me se exagerei — eu falava quase em tom maternal. — Fi-lo somente para mostrar-lhe a suma importância dos deuses nesse entre-mundo indefinido da vida e da morte… naturalmente, a alma de Giullian conhece-o por esse apelido e transmitiu-me a informação para que eu conseguisse convencê-lo a efetuar o procedimento da transmutação do sangue. Giullian teme que o senhor desista da busca que ambos empreendem e deixe-o a deteriorar-se à podridão. O Guardião não serviu apenas ao senhor, não é verdade? Há uma mulher envolvida também, certo? Uma tal doutora Nykholy.

Shilapov arregalou os olhos e caiu sentado na cadeira ao seu lado. Eu vencera o duelo e tinha-o em minhas mãos. Bastava continuar conduzindo-o delicadamente para obter o que eu desejava.

V

Como ele sabe sobre Nyk? Será que a necromancia realmente concede poderes sobrenaturais às pessoas? Sempre acreditei que a maioria dos rumores eram apenas exageros de pessoas criativas querendo ganhar dinheiro às custas da ingenuidade alheia. Quem poderia saber de meu vínculo com Nyk se ela vive somente em meu passado de vinte anos atrás? Quais erros eu cometi a ponto de revelar minha busca? E mesmo assim, como esse completo desconhecido teria descoberto minha relação com Nik? E por que ele está interessado nisso?

— Não… quero dizer, como? Não, o que… você… é? O que quer?

— Senhor Shilapov, enquanto ninguém entra pela porta de meu ateliê, eu não tenho razões para incomodar uma alma penada sequer. E mesmo que um Guardião seja posto sobre essa maca, mesmo assim eu permaneço isento de qualquer obrigação. Contudo, após os deuses falarem comigo, a vontade deles é imperiosa! E eu tenho que obedecê-los a todo custo. Entende? E é da vontade divina que Giullian regresse a nosso mundo para continuar sua missão.

— E o que os deuses ganham em troca?

— Giullian é quem saberá, senhor. Provavelmente ele realizará em vida a contrapartida que os deuses esperam.

Como ele sabe sobre Nik? Essa pergunta continua martelando-me a mente. O que resta se eu descartar o sobrenatural? Eu posso descartar o sobrenatural? Giullian, meu amigo, fale comigo. Mostre-me.

Fechei os olhos e apoiei o alto da testa sobre os punhos cerrados, sentado, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Bursówick, sereno como quem tem a vitória garantida, permaneceu quieto. Por breves instantes, vi flashes pela visão periférica e quando cessaram, um ponto claro e central surgiu. Penso ter sentido a maca trepidar levemente, mas me mantive concentrado para entrar em estado de consciência alterada. A maca trepidou com mais força e ouvi o som metálico proveniente dela. A luz delineou-se em forma de rosto pixelado e este tornou-se cada vez maior, como se avançasse rapidamente contra mim. Sua boca abriu-se e tomou-me, engolindo-me numa escuridão silenciosa. De súbito, vi moléculas com a dupla hélice helicoidal característica da representação do DNA. Elas conectavam-se a portas e elas se abriam. Entrei por uma dessas portas e vi uma biblioteca, antiga como as de três séculos atrás. Havia um pequeno robô em forma de água-viva que vasculhava os corredores das estantes, pegava alguns livros com seus tentáculos e novamente e novamente com uma paciência e leveza que me transmitia uma paz relaxante. Essa paz rapidamente foi contrastada com o terror de ver quem era o cliente que solicitara aqueles livros no balcão.

— Senhor Bursówick — disse eu ainda de olhos fechados —, Giullian parece confiar no senhor, apesar de eu não. No entanto, talvez realmente seja a vontade dos deuses que nossos caminhos tenham se cruzado. Afinal — e abri os olhos encarando Bursówick —, com seu poderio computacional, acredito que possamos nos beneficiar mutuamente.

Bursówick piscou rapidamente e pigarreou. Tenho certeza que ele entendeu o que eu quis dizer, apesar de querer manter as aparências:

— Não estou certo de acompanhar seu raciocínio, meu caro, ele resmungou.

— Nem eu! — e ri alto. — De alguma forma, Giullian fala comigo. Ele me disse que você poderá me ajudar, aliás, nos ajudar em nossa busca. Suponho que suas habilidades divinas servirão tanto a mim quanto a você.

— Com certeza. Já o disse. Preciso do sangue para realizar a transmutação e reviver Giullian. Essa é a vontade dos deuses e é realizando-a que eu serei recompensado.

— Quisera eu que fosse tudo tão simples assim, senhor necromante — dessa vez, pronunciei a palavra em tom amigável, quase de confidência, e acho que Bursówick percebeu. Essa mudança de tom claramente representa uma mudança de postura também. Quero trazer Bursówick para meu lado e escolhendo a mesma palavra, demonstrei minha abertura à negociação em termos menos intransigentes.

— Acontece, continuei, que Nykholy está desaparecida há vinte anos! É verdade que ela já foi a protegida de Giullian, antes de mim. Mas eu pouco sei a esse respeito. Ela desapareceu à época em que Giullian, de certa maneira, adotou-me. E no convívio que tive com ela antes, nunca conversamos sobre Guardiões, de modo que nada sei sobre o relacionamento deles dois. Sei apenas que ela me salvou e sumiu. Desde então, Giullian e eu estamos buscando seu paradeiro. Veja, pois, meu caro, que se Giullian depender do sangue de Nykholy, estamos em um deadlock. A não ser que você consiga substituir meu Guardião e ajudar-me a encontrar Nyk, nem eu, nem você e nem os deuses teremos nossas preces ouvidas.

— E por que eu confiaria nessa sua nova história? Você chegou a meu ateliê como um desesperado adolescente mimado, gabando-se da fortuna que seu pai dispendeu em Giullian por conta de seu nascimento. E, agora, fala sobre ter sido adotado por esse Guardião desativado. Quem é o senhor, Shilapov? Por que veio até mim com mentiras ofensivas? O que você esconde por trás dessa doutora Nykholy?

— Como eu disse, Giullian parece confiar no senhor. E eu confio demasiadamente em meu Apanhador de Sonhos. Se a misericórdia dos deuses para com sua alma e ofício são-lhe tão caras, Bursówick, o senhor meteu-se numa enrascada. Talvez não deseje o mesmo final que eu por caridade a mim, mas para salvar a si próprio. Torço para Giullian não estar enganado e para que a motivação do senhor não me traia. Além disso, penso que como um necromante, você não enalteça tanto assim o Sistema para querer denunciar-me… A verdade é que eu uso algumas identidades extras além daquela oficialmente reconhecida pelo Governo, meu caro. Estou buscando por Nykholy desde que me entendo por eu. E com meu disfarce de adolescente mimado, estou muito próximo de encontrar um cientista chamado Mukthanil Henkkel.

VI

Enquanto Shilapov, sentado naquela cadeira, concentrava-se para decidir se aceitava ou não minha explicação a respeito da situação peculiar de Giullian, eu vi Giullian sair de seu estado inanimado e entrar numa espécie de transe. Seus músculos contraíram-se espasmodicamente e suas pálpebras abriram-se. Seus olhos reviravam nas órbitas e sua boca parecia murmurar algo ininteligível. Quando Shilapov começou a falar, Giullian voltou ao seu estado desligado. Há tantas possíveis explicações, e outro sem-número delas que eu não poderia nem conceber, que seria tolice cogitar arbitrariamente uma conexão cerebral entre eles dois. No entanto, a total mudança de postura de Shilapov em relação a mim, baixando todas suas guardas a ponto de revelar sem pudor algum que Giullian fala com ele (o que a Ciência não explica é um forte tabu nos dias de hoje), aliada ao espetáculo quase sobrenatural que presenciei na minha frente, levanta suspeitas. Talvez tudo isso ainda fosse pouco. Porém, todos esses indícios parecem corroborar uma teoria sobre a conexão inconsciente entre homem e Guardião. Há algum tempo cremos no poder quase oculto do inconsciente, capaz de alterar comportamentos tão abruptamente e tão naturalmente que chega a ser desconcertante. Assim, eu seria um tolo e, muito provavelmente, um necromante morto se não desse ouvidos a essa voz feminina que levanta o benefício da dúvida: minha intuição.

Será verdade? O cientista-chefe do Instituto Uusi Mies estava certo, afinal? Talvez ele tenha empreendido a criação e coordenação do Instituto para provar sua teoria. Isso é uma conjectura muito vaga, mas não consigo aquietar minha intuição a esse respeito. Lembro-me muito bem de seu artigo: An Issue on Brain Connections Using Machine Learning as Interface – Results and Extrapolations. Fora publicado na revista científica Nature, em meados de 2.290, aparentemente sem passar pela revisão dos pares. Que escândalo naquela época! O meio acadêmico ficou em polvorosa, acusaram o doutor Henkkel de suborno e a revista de anti-ética e anti-profissional por ter aceitado a propina; a mídia fez tanta propaganda que a confiança da opinião pública nas pesquisas científicas despencou abruptamente. A crise crescente minava o poder soberano da Ciência como verdade absoluta de todo o universo (chegamos ao cúmulo de gastar milhares de milhões da reserva econômica mundial para provar cientificamente o que já era sabido pelos avós de nossos avós! Mas qualquer conhecimento era desvalido e marginalizado se não recebesse a bênção da Ciência). De repente, nunca mais se ouviu uma única palavra a respeito do caso. Os editores da revista Nature publicaram uma nota pedindo desculpas, afirmando que (sic) “um hacker alterou a matriz dos artigos a serem publicados neste mês. O artigo do doutor Henkkel está, obviamente, em processo de revisão dos pares e, por isso mesmo, não deveria ter sido publicado. Foi com profunda tristeza que nos atentamos à invasão de nossos sistemas após as manchetes na mídia. Contratamos uma empresa especializada para investigar a ação do hacker e faremos todos os investimentos necessários para aprimorar nossa segurança”. E pronto. Retiraram de circulação todos exemplares que conseguiram encontrar, até mesmo, dizem os boatos, pagando altas somas aos proprietários. Por um mero capricho juvenil de lutar contra o Sistema, eu, que muito me interessava pelo cérebro humano naquela época (quase tanto quanto pelo cérebro guardião), tratei de manter uma cópia segura comigo daquele artigo. Ficara fascinado pela seção de Extrapolações… Henkkel afirmava crer ser possível estabelecer uma conexão mental entre um Guardião e seu protegido!

Giullian e Shilapov de repente estão cada vez mais interessantes. Aposto meu cajado de alquimia que os segredos que repousam em seus passados valem mais que todos os Guardiões que eu ressuscite pelo resto da minha vida! Mas, raios!, que diabos essa doutora Nykholy estar sumida!

— Senhor Shilapov, não posso, aliás, não quero nem sequer imaginar o que aconteceria se os deuses não tivessem sua vontade atendida… Talvez o senhor nunca tenha ouvido a respeito desse tipo de heresia, por a necromancia ser marginalizada em nossa sociedade, mas eu já encontrei com necromantes que vivenciaram a fúria dos deuses. Os relatos, mesmo podendo ser postos em dúvida, não tornam essa opção muito convidativa. Honestamente, prefiro aliar-me à sua busca que correr o risco incauto. Jamais o denunciarei ao Governo por sua habilidosa estratégia de usar múltiplas identidades. Como necromante, orgulho-me dessa sua atitude!

— Fico contente com suas palavras, senhor Bursówick. Porém, talvez fosse melhor se acostumar com a ideia dessa punição infernal. Já são vinte anos de busca… e sem Giullian, confesso ter minhas esperanças diminuídas.

— Em prol de nossa parceria, meu caro, ignorarei seu total menosprezo pelo quilate de minha contribuição à causa. E para…

— Desculpe, Bursówick. Não foi minha intenção desprezar sua ajuda. Minha vida toda tive Giullian a meu lado e a perspectiva de isso ser apenas passado daqui em diante é perturbadora! Enaltecer Giullian não significa menosprezar o senhor.

— Tudo bem, caro Shilin. Todo homem tem seu passado e, creia-me, eu sei como você se sente. Se me permite, você está encarando a situação muito bem. Já vi homens mais velhos que o senhor desmontarem-se por completo ao passarem pela experiência de morte de seu Guardião. Mas, como eu dizia, há uma maneira, perigosa, porém viável, de obter a ajuda de Giullian mesmo em seu estado vegetativo.

— Como seria isso possível? Eu nunca…

— A necromancia, senhor Shilapov — disse em tom mais grave, para manter minha vantagem sobre ele —, possui um arcabouço de ferramentas e possibilidades impensáveis! Eu mesmo me surpreendo por encontrar ainda tanto terreno desconhecido nessa Arte. A necromancia parece de um potencial infindável, como a vida. O que pode quase soar paradoxal.

Fez-se um silêncio no ateliê. Fiz uma pausa proposital. Shilapov nada disse e eu pude notar em seus olhos um misto de admiração (quem não admira o Mistério?) e fome. Ele ansiava pela possibilidade de eu não estar blefando e o silêncio corroborava minha análise da situação.

— Amigo Shilin, é possível sondar a mente de um Guardião!

— Quê?! Ler a mente de Giullian?!

— Não é tão simples assim, Shilin. Seu protegido precisa estar presente e consciente no processo. É quase como se, através das técnicas necromantes, eu colocasse sua mente em contato direto com a de Giullian. De uma maneira simplificada, é como se Giullian escolhesse falar apenas com quem ele confia. O protegido é a escolha mais óbvia nesse caso, principalmente se ambos têm uma relação de cooperativismo. Daí ser indispensável a presença do protegido para a técnica funcionar.

— Bem, então vamos logo com isso! Há algum risco envolvido para as duas partes?

Bom, o que eu poderia responder? É claro que não há risco envolvido. Na verdade, o protegido nem precisa sequer saber da existência dessa técnica. E, para mim, sempre foi melhor que eles não soubessem. Eu teria criados problemas para mim ao invés de obter vantagens se todo protegido ou protegida que me procurou soubesse que fiz download parcial da memória do Guardião ou Guardiã deles. Por outro lado, afirmar um risco aumenta a mística por detrás da técnica. Contudo, penso que Shilapov já está suficientemente entregue a mim. A perspectiva real de ausência eterna de um Guardião abala tanto as pessoas que elas ficam psicologicamente frágeis. É claro que eu não posso subestimar alguém tão obstinado quanto Shilapov, mas acredito que sua peculiar situação nesse momento ajudou-me a ficar com a vantagem. Aumentar a mística da necromancia seria um exagero desnecessário.

— Não, Shilapov. O procedimento é seguro para ambos. O único risco é não obtermos nenhuma informação útil, nada mais. Sente-se ali próximo da cabeça de Giullian. Vou colocar essa… hã… touca de ervas em sua cabeça. Na testa de Giullian eu coloco esse crucifixo de madeira maciça, isso, assim. Agora, feche os olhos. Invocarei alguns espíritos para nos auxiliar nessa missão. Ouviremos a voz de Giullian e você poderá conversar com ela como se conversasse com o próprio Giullian. Relaxe.

Lancei mão de alguns truques disponíveis no ateliê. Diminuí a intensidade da iluminação, deixei uma pequena névoa densa formar-se até a altura do joelho, tornando-se mais rarefeita à altura dos ombros. Deixei algumas sementes grandes e secas caírem nas teclas do Balafon e invoquei o Grande Espírito Quântico enquanto conectava novamente o meu ao computador de Giullian. Coloquei um software de inteligência artificial para interpretar os dados obtidos e transformá-los em áudio. Da mesma maneira, o software (carinhosamente chamado de Shirili) entenderia a fala humana e faria sua conversão em comandos computacionais para direcionar a mineração dos dados.

A mente de um Guardião atingiu uma complexidade incompreensível. Mesmo com meu poderoso computador, levaria meses para conseguir extrair todos os dados de um Guardião e outros tantos meses para interpretá-los. Tive sorte de ter encontrado menções ao Instituto Uusi Mies no pouco que consegui extrair de Giullian. Quando fui investigar mais à fundo, deparei-me com informações criptografadas com outro DNA que não de Shilapov. Creio sê-lo da doutora Nykholy. Obtive algumas outras informações que atiçaram minha curiosidade e interesse por essas pessoas. Eram pouquíssimos dados, mas minha decisão de conquistar Shilapov prova-se acertada! Com ele interagindo com Giullian, através de Shirili, a mineração de dados será muito mais direcionada e obterei informações relevantes muito mais rapidamente do que se o fizesse pela força bruta. Quase como se fosse um brinde dos deuses, o próprio Shilapov sondará tudo a respeito do Instituto Uusi Mies, uma dádiva para mim! Afinal, o passado deles está intrinsecamente ligado ao Instituto e qualquer esperança de encontrar a doutora Nykholy reside em desenterrar esse passado misterioso e secreto.

— Vai começar, sussurrei.

— Giullian?

VII

“Giullian, venha! Vamos brincar de consertar a casa dessas bonecas… Um hacker invadiu a rede doméstica e bagunçou todas as configurações de tudo. Ele foi muito mal: fez a televisão ligar de madrugada, assustando todas as meninas; falou para geladeira que ela não tinha mais nenhum leite e agora o VANT-entregador trará litros de leite e não há espaço; o sofá não reconhece mais nenhum comando e esqueceu todos os gostos de conforto das moradoras; as lâmpadas pensam que é sempre dia e nunca acendem, as cortinas nunca fecham; nem mesmo a banheira escapou dessa malvadeza… ela não sabe quanta água cabe nela mesma e transborda, Giullian! Quanta bagunça… vem… vamos… arru… mar…”

“Giullian, como é mesmo o nome daquele rapaz que me convidou para sair? Andrew Bugókis? Ele é engraçado… um malucão… o que você acha? Devo aceitar o convite? Será? É, concordo, um café não pode dar errado…”

“Giullian, aquele Instituto é insuportável! Aqueles cientistas são nojentos! As mulheres de lá também são horríveis! Todos fingem acreditar que não é desumano o que eles fazem com os bebês… ah, se você visse, Giullian… Não posso ficar calada. Precisamos fazer algo. Alguém precisa intervir! Não importa o benefício que a pesquisa traga, ele sempre estará manchado com o infanticídio que eles cometem! E em nome do quê? Da Ciência! Ah, maldita Ciência! Quando nos deixamos seduzir tanto por essa falsa religião? Por que a mente humana é tão racional, Giullian? Até hoje baseamos nosso conceito de verdade em algum que um fulano, que nem podemos saber se existiu mesmo ou não porque é a própria Ciência que ele ajudou a fundar quem comprova sua existência, disse há mais de oitocentos anos. Pensamento lógico, cartesiano, método científico… puá. Isso foi útil naquela época, mas hoje é totalmente ultrapassado! Limita nossa capacidade mental!”

“Giullian, Henkkel pode ser um gênio, mas é também um assassino. Nossa relação profissional foi fabulosa no início, mas agora já não o suporto. Ele perdeu a sanidade… Não penso que eu esteja crescendo mais. A pesquisa está obsessiva e ele não permite mais investigações criativas! Quer que todos nós torturemos os números até comprovarmos a teoria que ele sustenta. Eu acredito que é possível estabelecer uma espécie de conexão mental entre um Guardião e seu protegido. Nós dois mesmo já passamos por isso, não é verdade? Quantas vezes algo me afligia, sem que eu soubesse nomear? E, de repente, eu ouvia sua voz na minha cabeça, geralmente quando estava cochilando no fim da tarde, e quase que num passe de mágica aquela agonia dissipava-se? Ou quando você acertava em cheio o momento preciso que eu precisava de um precioso chocolate? E trazia o meu preferido! Tenho certeza que há um enorme potencial a ser explorado a esse respeito… e que a dinâmica de nossas duas mentes é sem igual! Se eu encontrar uma forma de modelar isso e explicar seu mecanismo, aposto que conseguiremos lidar com o problema de dependência psíquica…”

“Giullian, será hoje à noite. Já revimos o plano milhares de vezes. Espero que não tenhamos nenhum imprevisto. Ensaiei mentalmente cada passo a semana toda em que estive no Instituto. As duas últimas vezes foram perfeitas. Hoje as pessoas trabalhando lá serão poucas, mas mesmo assim você precisará invadir a propriedade. Não há maneira de te colocar lá dentro pelas vias formais. Nenhum Guardião tem, e jamais terá, permissão de acesso. Você tem a planta de cabeça, né? O melhor local para eu te entregar meu Shilin é no depósito da cozinha. Ele é a prioridade! Pelo menos uma criança, Giu… Depois, eu vou acessar os servidores diretamente pelo console físico deles. Consegui convencer o técnico a me dar privilégios de root ontem à noite… e foi nojento, Giu. Há seres humanos imundos no mundo ainda… Quando você se assegurar que Shilin está à salvo na aquanave, você volta para me ajudar. Nesse meio tempo eu congelarei todas as câmeras e assim não haverá registros de sua presença no Instituto…”

“Giu, rápido! Aquele técnico desgraçado me entregou! Pensei tê-lo manobrado bem. Depois de todas as coisas nojentas que eu o deixei fazer em mim… maldito! O mais importante agora é criptografar seu cérebro. Eles não podem descobrir a minha pesquisa e nem o paradeiro de Shilin! Vamos usar a chave transgênica que eu criei. Se eu for pega, a destruo e nem meu DNA e nem centenas de computadores quânticos conseguirão quebrá-la. Sim, eu sei dos perigos, mas agora não é hora para…”

“Corra, Giu! Eles não conhecem nossa rota de fuga. Entre ali!”.

— Minha amada Nykholy, é melhor não deixarmos a comida esfriar. Cozinhei seu prato de jantar preferido: xis-tudo.

— Giu, eu já disse para me chamar de Nyk. Quando eu era criança adorava que você me chamasse com toda a pompa e cortesia formal, mas agora prefiro um tratamento mais descontraído. Aquela fase já passou, meu querido.

— Tudo bem, Ny… k. Estou com dificuldades para me adaptar. Às vezes penso que meus progenitores erraram ao escolher um cérebro demasiadamente estável para mim. É um esforço conseguir esquecer as coisas, fatos, comportamentos. Venha, atualize-me do seu dia de trabalho, por favor! Ser proibido de entrar no Instituto Uusi Mies é algo a que jamais me adaptarei. Não deduzi nenhuma outra solução além de eles fazerem algo muito errado para coibir Guardiões lá dentro.

— Não acho que sua solução esteja errada, Giu. São quatro anos trabalhando lá e, mesmo não tendo acesso a todas as pesquisas ou áreas, também penso que eles fazem algo muito sujo por lá.

— Quatro anos e dois meses, amad… Nyk. Você ingressou como pesquisadora vinculada ao Instituto Uusi Mies em três de janeiro de 2.301, cerca de quatro anos após a sua fundação. A história por detrás desse lugar é tão misteriosa que não consegui encontrar uma data precisa e confiável de sua inauguração formal. Ainda penso que a senhorita devesse revisitar a decisão de trabalhar lá.

— Querido Giu, gosto que me chame de amada; mas, gosto mais ainda quando fica perturbado sem saber qual palavra escolher. Senhorita foi uma escolha infeliz, no entanto… talvez ela lhe seja mais neutra e o ajude a se adaptar. Tudo bem. Enfim, Giu, como já lhe disse inúmeras vezes em todas as nossas conversar sobre meu trabalho: apesar dos indícios de práticas anti-éticas, para dizer o mínimo, no Instituto, a oportunidade é única e incrível! Não há outro laboratório do planeta, e talvez em nenhuma outra colônia, que iguale a tecnologia e o material disponível para experiências. E até agora eu estava apenas como que apagando incêndios em dez ou doze projetos que correm por lá. Por um lado, pude ter uma visão global do que eles fazem, em grande parte; por outro lado, nunca pude entender os detalhes de cada projeto. Fui escalada uma vez para colher dados de um grupo de crianças, mas não me disseram uma única palavra sobre a pesquisa. Apenas ordenaram colher os dados e me deram a instrução de trabalho. “É um projeto confidencial. Sinta-se feliz de poder substituir o pesquisador Köllbrit hoje”, foi só o que me disseram. Não gosto disso, Giu; gosto de me dedicar de corpo e alma à pesquisa. Principalmente, ao meu tema de pesquisa. E estou perto de conseguir isso.

— Nyk, quer dizer que aceitaram eu projeto? Finalmente, a sen… você continuará sua pesquisa em telepatia?

— Não, Giu. Mas, sim! Quero dizer, a Academia aceita apenas o termo “conexão assistida cérebro-cérebro em humanos”. Precisei camuflar alguns de meus objetivos para que a proposta passasse… E funcionou! Giu, a partir do mês que vem terei meu próprio projeto!

VIII

Dddrrr-rrrréééééééé!

Drrr-rrrréééééééé!

Dddrrr-rrrréééééééé-rrrrrrééééééééééée!

O aviso sonoro de visitantes soou intensamente pelo meu ateliê. Maldito momento para uma interrupção. Finalmente Shilapov estava chegando à memórias de valor. Ignoro a campainha, mas sua insis — dddrrrrééééééé — tência atrapalha visivelmente a concentração de meu companheiro. Raios! Interrompo a conexão entre ele e Giullian, para não perder uma única informação. Seu olhar assustado e desnorteado transforma-se na mesma indignação que, tenho certeza, ele vê em meu rosto, ao aperceber-se daquele irritante som.

— Só um minuto, Shilin, vou desligar o auto-falante de plasma que anuncia visitantes para continuarmos.

Quando Shilapov aprumava-se para conversar com Giullian novamente, ouvimos ao longe a voz do inoportuno visitante, gritando quase rouco, cujo esforço descomunal revela-o como um senhor de idade avançada:

— Eu sou o doutor Henkkel. Exijo que me deixe entrar!

Olhei estarrecido para Shilapov. A indagação patente em meu rosto impeliu Shilapov a uma explicação:

— Eu visitei ontem um pequeno vilarejo onde me disseram morar o doutor Henkkel. Mas, não obtive nenhum resultado lá. Eu sei quão cauteloso é esse homem, dada a dificuldade de encontrá-lo. Não imaginei jamais, no entanto, que ele apareceria como que caído do céu à nossa frente. Com certeza ele terá informações sobre Nyk!

— Bom, respondi, teremos de jogar muito bem para conseguir tais informações. E jogar melhor ainda para saber se elas não são falsas.

Fomos à antessala, com o cuidado de cerrar a porta do ateliê afim de não expor o estado de Giullian, e deixei o suposto doutor Henkkel entrar. Após algumas cortesias sociais, indaguei sobre o motivo de aquele senhor apresentar-se em meu ateliê em tão avançada hora. Ele me olhou seriamente numa pausa prolongada, virou-se para Shilapov e após uma profunda inspiração seguida de uma expiração rápida, disse-lhe:

— Estou procurando por vocês dois há anos. Sei que aquele robô está com você, meus Guardiões viram os dois ontem perambulando pela minha vila. Onde ele está?

— Não são raras as pessoas — intervi —, que possuem mais de um Guardião. Honestamente eu não sei nem porquê ter um, quem dirá mais de um! Mas, entenda, é o senhor que está sendo educadamente recebido em minha casa. É descortesia ignorar uma pergunta direta de seu anfitrião. Em primeiro lugar, o doutor Henkkel de quem eu ouvi falar não demoraria mais que meses para encontrar alguém; em segundo lugar, o que realmente você quer aqui?

Henkkel virou-se para mim, indignado pela intervenção tão brusca quanto natural. Balbuciou alguns grunhidos ininteligíveis e agitou a mão com a bengala como se quisesse me socar. Uma bengala?! E essa cartola? Por Deus, pensei, existe algo mais retrógrado que isso? Em plena incorporação tecnológica, com tantos modelos de exoesqueletos-andadores disponíveis, esse senhor usa uma bengala? E uma cartola? Elas têm sua beleza e estilo, indiscutivelmente. Porém, para alguém com tantos Guardiões, elas se tornam um contraponto destoante, um choque. Logo se percebe que ele não é uma pessoa supérflua e modista. É preciso coragem e autoconfiança, ou loucura, para aparecer assim em público.

E enquanto eu lia tudo quanto podia dessa figura inédita em minha oficina, um Guaridão entrou pela porta destrancada da frente e sussurrou a seu protegido. Henkkel acalmou-se, concordando com o que quer que o Guardão tenha-lhe dito. Diabos! Seja lá quantos robôs ele tenha, se tiver trazido mais de um, eu e Shilapov estaremos em desvantagem. Percebendo que eu repetiria minhas perguntas, Henkkel precipitou-se e disse:

— Eu quero o Guardião desse rapaz! Em troca, direi aonde ele pode encontrar a doutora Nykholy.

— O que você sabe sobre ela? Diga!

— Acalme-se, Shilapov — falei. A ferida foi reaberta e ele se deixaria levar pelas emoções. — Nós nem sabemos — continuei — se ele tem realmente alguma informação útil a nós. Qualquer hacker devidamente mal-intencionado poderia passar-se de doutor Henkkel e tirar vantagem da descoberta de sua busca. Parece-me afinal, caro amigo, que você se expôs sem as precauções necessárias e agora teremos que lidar com esse cúmplice. Fico imaginando quem está por trás desse ataque de extorsão, já que um senhor da sua idade não teria habilidades técnicas para efetuar um golpe desses. Ao menos o senhor estudou um pouco sobre o doutor Henkkel? Essa bengala é um exagero, não acha? E, além do mais…

— O senhor é inteligente, senhor necromante. Mas, eu sou mais! Quer ferir meu ego assim como eu feri seu amiguinho. Ele já teria soltado a língua se você não intervisse. Eu sei que o Guardião Giullian está ali atrás, em sua oficina, morto. Meus Guardiões são extremamente sofisticados e têm os sensores mais impressionantes que é possível comprar. Detectaram a assinatura sílica de Giullian, determinaram suas emissões eletromagnéticas que de tão baixas, significa apenas sua morte. Como vê, necromante, não sou tolo. Tampouco preciso extorqui-los. E sim, eu estudei e muito o doutor Henkkel porque sou eu ele próprio.

— Então meu Guardião é extremamente valioso para o senhor! Se mesmo morto, o inteligentíssimo doutor Henkkel precisa tão desesperadamente dele a ponto de expor-se em público, é porque ele contém algo que o senhor não possui e essa informação é-lhe tão valiosa que não confiou a tarefa de obtê-la a nenhuma outra pessoa deste mundo ou das colônias.

Fez-se silêncio por alguns instantes, o suficiente para nós quatro avaliarmo-nos. Shilapov concluiu-se correto em suas suposições, pois continuou:

— E, suponho, o senhor Henkkel precisará das habilidade necromantes de meu amigo para conseguir extrair a informação de meu Guardião morto. Seria custoso demais encontrar um necromante tão bom quanto ele; creia-me, eu pesquisei muito antes de vir aqui. A vida dele, portanto, está razoavelmente segura. Eu, por outro lado, não tenho valor algum para o senhor. Porém, não sou eu quem precisa temer a morte… eu o procurei por toda minha vida e sempre imaginei, em dezenas de cenas distintas, o que faria quando o encontrasse. Não é o senhor quem exigirá algo! Giullian e eu fomos precavidos o suficiente para deixar os rastros que queríamos serem descobertos. Se o senhor soubesse que o procurávamos, talvez facilitasse as coisas vindo até nós. E não estaríamos despreparados. Giullian instalou um pulsar em seu crânio que será ativado por mim a qualquer momento. Você sabe o que isso significa, não? O pulsar destruirá por completo o cérebro dele e nem mesmo o brilhante necromante Bursówick poderá resgatar sua alma novamente. Sugiro que o senhor convença-me a não ativar o pulsar dizendo tudo que sabe sobre Nykholy!

Henkkel virou-se para seu Guardião e este meneou a cabeça. Após outro suspiro profundo, disse:

— Pois bem, Shilin, eu irei contar. Meu Guardião confirmou o pulsar existente em Giullian. Detectamos que seu acionamento é por um circuito neural conectado a seu cérebro. Antes que eu pudesse realizar qualquer intervenção física para impedi-lo de acionar o pulsar, seu cérebro já teria enviado o comando. Muito inteligente vocês dois. Vou sentar-me aqui nesta cadeira, se meu anfitrião permitir. Ah, obrigado. Estou muito velho e cansado… e também deixo-o tranquilo, Shilin, em relação a qualquer atentado contra sua vida. Fique relaxado quanto a isso. Os boatos que ouviu sobre mim não passam disto: boatos. Pois bem, doutora Nykholy. Ah, Nyk… ela foi a melhor pesquisadora que eu contratei! E a mais linda. Extremamente inteligente e sagaz, ela conseguiu usar o meu laboratório de trampolim para suas próprias pesquisas. Ousada. Até demais… Questionava abertamente diversas linhas de pesquisa que eu conduzia por lá. Tentei ao máximo ludibriá-la, ocupando-lhe com tarefas excessivas para que ela utilizasse sua inteligência em prol da minha pesquisa ao invés de ocupar-se com questionamentos de ordem ética. Um cientista de verdade não pode se limitar à ética; esta é em demasia atrelada à cultura e sua gigantesca inércia é quem torna qualquer avanço social moroso e imperceptível. Levar a ética à Ciência é querer torná-la igualmente morosa. Mas, Nykholy possuía uma mente sagaz. Mesmo sobrecarregada, ela conseguiu aprovação de verba para seu próprio projeto. É claro que eu poderia vetá-lo se quisesse, porém o disfarce que ela utilizou foi tão convincente que apenas eu o notei. Toda a banca creu que ela estudaria novas abordagens para a conexão assistida cérebro-cérebro em humanos focando em técnicas para o computador que intermedeia os dois cérebros. Contudo, eu sabia que ela nem cogitava utilizar uma conexão assistida. O objetivo científico dela, assim como o meu próprio, era realizar uma conexão cérebro-cérebro direta! Por algum motivo que desconheço, ela conseguiu. Nem mesmo eu fui capaz de eliminar o computador intermediário… Trago-o debaixo dessa cartola. E por isso sempre serei mais inteligente que vocês dois juntos. Tenho o cérebro de meus Guardiões conectados ao meu. São mais de cinco cabeças pensando ao mesmo tempo sobre cada detalhe e cada evento nesta sala. Nem o ser humano mais inteligente é capaz de vencer-me! Nykholy foi a única a conseguir essa proeza. Mas, graças ao técnico Harlam, fui informado que ela atacaria o Instituto Uusi Mies vazando nossas informações confidenciais ao WikiLeaks. Céus, só de lembrar aquele técnico gabando-se de como fartou-se com Nyk, dá-me vontade de aplicar-lhe novamente todos os experimentos que causaram sua demência! Achei desumano o que ele fez com minha doutora Nykholy. Naquela noite que você fugiu do meu Instituto, Shilapov, capturei Nyk. Os dados que você e seu Guardião vazaram causou um dano irrisório. Sua fuga mesmo foi uma perda irrisória, pois eu encerraria o projeto que o utilizava como amostra sob teste no dia seguinte. Meu maior prêmio foi a captura daquela bela mulher e seu cérebro. — Shilapov e eu estávamos ambos entretidos com a história do doutor Henkkel, cada qual por seus motivos, absorvendo cada palavra proferida por sua boca. Satisfeito com a platéia seduzida, Henkkel continuou. — Pelo crime que ela cometeu contra o Instituto, consegui interrogá-la mais de uma vez. Um homem apaixonado é capaz de tudo, senhores. Minha paixão por minha pesquisa confundiu-se com a doce Nyk e satisfiz-se com isso. Um homem apaixonado torna-se tolo, senhores. A doutora Nikholy contou-me que utilizou as crianças de meu projeto para experimentos próprios. Isso mesmo, Shilin, você não passava de uma cobaia para ela! Ela utilizou todos vocês como cobaias para desenvolver uma ponte telepática com um Guardião. Mesmo cativa ela era desafiadora e recusava-se a colaborar de bom grado. Custei para arrancar-lhe seu sucesso. Ela adorava provocar-me cuspindo minha incapacidade de criar uma ponte direta: “você é estúpido demais para ver a solução mesmo que eu lha desenhasse!”. Quando em nossa última entrevista ela se recusou a ceder-me os dados, precisei apelar para métodos mais invasivos; métodos que aprendi testando naquele técnico parvo. E o que eu descobri antes de ela morrer é que você foi a única criança a estabelecer uma conexão direta com um Guardião; talvez por isso é que tenha sido a única a sobreviver, e que ela criptografou toda sua pesquisa na mente de Giullian utilizando uma chave transgênica. Quando a forçaria revelar o DNA transgênico utilizado na criptografia, seu coração parou para nunca mais voltar a bater. O método fora invasivo demais, Shilin. Meu coração parou com o dela naquele instante… Principalmente ao saber por meu legista particular que ela se engravidara de mim… Passei muitos anos até recuperar meu gosto pela vida; somente recentemente reacendeu em mim a chama e comecei a procurar por você e Giullian.

— Você está dizendo… quer dizer que… Nyk está… ela morreu? Você a matou? Você… ela? Ela?

— Ora, não faça todo esse drama, jovem rapaz. Tenho certeza que após vinte anos você não tinha esperanças de encontrá-la viva, tinha? E meu sofrimento? Eu a amava! Embalsamei seu corpo em nome de meu amor por ela. Ele está bem conservado em minha residência e concedo-lhe visitá-la. Vê, não sou mau como os boatos que circulavam. É só me ceder Giullian por uma semana, depois o devolvo a você.

Shilapov caiu sentado no chão, recostando-se em algum móvel perto de si. Seus olhos desvairados não revelavam tino algum. Seus lábios balbuciavam ininteligivelmente. Entre os sons indistintos, eu ouvia repetidamente apenas “Nyk”. Henkkel conteve um riso de satisfação. A estratégia dele foi muito bem sucedida. Shilapov cedeu à carga emocional e não tinha condições mentais de disparar o pulsar em Giullian. Por fim, vi-o abraçar as pernas enfiando o rosto entre os joelhos enquanto puxava-se os cabelos com os punhos cerrados. Henkkel virou-se para mim:

— Senhor necromante Bursówick, proponho-lhe um trato em que ambos sairemos ganhando: cedo-lhe recursos infindáveis para quebrarmos a criptografia de Giullian. O senhor poderá ficar com tudo que necessitar para vencer a criatividade de Nykholy. Em troca, peço apenas exclusividade sobre os dados na mente do Guardião.

— É uma proposta interessante, doutor Henkkel. Mas, minha posição é muito frágil, ainda mais por eu ser um necromante. Podemos trabalhar juntos, mas sob minhas regras. Eu me esconderei num ateliê desconhecido pelo mundo e nosso único contato será através da Rede Oculta de Informações. O senhor deixará um endereço de contato comigo agora e irá embora dessa cidade-Estado. Nesse endereço, eu lhe enviarei um canal criptografado e não-rastreável de comunicação e uma igualmente criptografada e não-rastreável conta monetária. O senhor depositará nessa conta qualquer quantia da qual eu necessite para montar em meu novo ateliê a infraestrutura para quebrar essa criptografia. E me cederá acesso a quaisquer informações do Instituto Uusi Mies que eu solicitar. Dado o forte vínculo da doutora Nykholy com o Instituto, tenho certeza que há dados lá que me auxiliarão na empresa. Quando eu tiver acabado, enviarei todos os dados de Giullian ao senhor. Não quero…

Abruptamente, sou interrompido por um estrondo oco vindo da outra sala. Olho os olhos de Henkkel tão surpresos quanto os meus. Apresso-me naquela direção e ao abrir a porta, caio de joelhos, incrédulo. Henkkel segue-me os passos tão rápido quanto sua idade permite. Ao entrar, ultrapassa-me, arremessa sua bengala para frente e tira a cartola para amassá-la diante do peito com as duas mãos, revelando o computador em forma de domo implantando em seu crânio cirurgicamente calvo. De olhos arregalados contempla pasmo de pavor, ódio e desilusão, a cabeça de Giullian liquefeita sob ação do pulsar. De todo seu corpo, através da roupa, sai ainda a fumaça dos circuitos neurais descentralizados também fundidos. É o fim de algo que nem começou.

Quando dou por mim, vejo à porta do laboratório, Shilapov, de pé, olhando-nos com satisfação. “Talvez nos reencontremos num breve futuro. Estejam preparados para mim”. Desnorteando, vejo-o caminhando calmamente para fora do ateliê. Aproximando-se da porta de saída, ele cruza com o Guardião de Henkkel. Olha-o fixamente nos olhos e diz:

— Você percebeu que eu iria ativar o pulsar, mas não contou a Henkkel. A estratégia dele de me abalar psicologicamente para impedir o uso do pulsar foi brilhante. Quando eu consegui me recuperar, graças a Giullian, eu sei que você percebeu. Porém, a meu pedido, nada comunicou a seu protegido. Agradeço-lhe. Henkkel não é mais seu protegido. Teria a bondade de me acompanhar?

Perco-os de vista na noite escura, ainda sem entender como foi que num breve instante eu perdi toda a promessa de encontrar o que tanto buscava…

Posfácio

O doutor Henkkel realmente tirou meu chão ao contar-me que Nykholy está morta. Sua história tão melindrosamente engendrada envolveu-me e não consegui deixar de acreditar nele. O golpe foi certeiro e eficaz. Bursówick é quem me salvou daquela enrascada. Henkkel quebrou meu espírito e nem mesmo lutar por Giullian eu conseguiria. Mas, a discussão que os dois tiveram deu-me tempo. Sem dar-me conta, entrei em estado de consciência alterado e Giullian veio a meu socorro.

“Amigo Shilapov, que satisfação poder comunicar-me com você! A incursão que você fez em minhas memórias ativou meu subconsciente e facilitou nossa conexão cérebro-cérebro agora. Sim, amigo, nós temos uma conexão direta. Nykholy e eu experimentáramos uma conexão semelhante, porém muito menos clara e menos intensa. Foi essa vivência a força motriz para ela perseguir uma conexão direta entre cérebros. Essa vantagem guiava-lha por caminhos mais diretos que o doutor Henkkel poderia trilhar na busca da telepatia. A doutora Nykholy não desvendou todos os mistérios; não soube explicar porque apenas você conseguiu estabelecer essa conexão. Mas, onde sua alma estiver, com certeza está irradiante por ter salvo pelo menos uma criança…”.

“Sou grato pelo necromante Bursówick ter interesse nas pesquisas do Instituto Uusi Mies. Caso contrário, é muito provável que ele tivesse reconfigurado meu sistema de boot e eu perdesse a minha maior conquista. Sabe, amigo Shilapov, estive trabalhando para acessar completamente meu inconsciente. Eu sabia que havia uma região inacessível em minhas memórias; uma nuvem negra tomava-a e impedia-me conhecê-las. Mas eu não duvidava da existência daqueles dados em meu cérebro! Entendi, após conseguir dissipar a névoa, que todas essas lembranças estavam criptografas pela doutora Nykholy utilizando o DNA transgênico. Oras, se a criptografia fosse com o DNA dela, eu teria resolvido a questão há anos. Desde aquela época que fugimos do Instituto, venho trabalhando para quebrar a criptografia. Nykholy tomou o cuidado de não me informar a sequência genética da chave que criara por motivos óbvios; ninguém guarda as duas chaves no mesmo local. Quando finalmente eu consegui desvendar o DNA, uma rede neural má formada em meu cérebro guardou a informação causando-me uma amnésia. É como se eu tivesse esquecido quem e o que eu sou… como se esquecesse de como é estar acordado… e entrei em estado de sono permanente. Se Bursówick me acordasse, temo que perderia a solução do DNA, talvez para nunca mais encontrá-la.”

“E que alegria a minha ao vê-lo vasculhando minhas memórias! Isso despertou parte de meu cérebro. Uma parte dele acordou e lembrou-se da criptografia quebrada. O material da pesquisa de nossa amada Nyk é deslumbrante! Creio ser possível o senhor conectar-se com qualquer Guardião. Venha, vou lhe mostrar! Vamos transferir todos os livros da minha biblioteca para o Guardião que vigia a porta. Nyk deixou um diário para nós também!”.

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